segunda-feira, 8 de setembro de 2014
antes do dia seguinte
às primeiras horas da manhã, acordava com o galo da vizinha (todo-o-dia como o cotidiano do Chico).
pôs termo a esse despertador seguindo a receita do cunhado.
a sobremesa foi break opera pie.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
lgº da cruz de celas, nº 8
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Espreitou a janela e Monção acordara com um maldito nevoeiro que lhe chegava aos ossos. Algumas pessoas já atravessavam a praça – lembrou-se então que era dia de feira. Ia lavar-se e fazer a barba, para se pôr a caminho que o trabalho de travelling salesman não dava para descansar. Nunca chegou a saber, mas décadas depois a sua profissão fora praticamente extinta, o lugar de caixeiro-viajante era substituído por promotores, por catálogos e por vendas on-line.
O pão estava como ele gostava – tostadinho. Marmelada, manteiga… c’um caraças, tanta mordomia. Ontem tivera que lhe zupar, já andava há muito a arrebitar cachimbo. Levou duas lamparinas que até andou de lado. Afinal tinha valido a pena. O pequeno almoço estava como nunca. Uma vez até teve que lhe bater no dia de Páscoa, mas ela pediu, carago! – Só devo voltar lá para o fim de mês, ouviste?
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Quando chegou ao Porto, foi aos Correios ao pé da Câmara e telefonou.
- a dona Alzira está?
- quem fala?
- daqui é o homem das batatas.
Ó Zé, Zééé, a dona Alzira está? – mas que canseira para o Zé, ter que responder. Mais parecia um alentejano com tamanha preguiça, apesar de ser um beirão de gema. Mais tarde deveria distinguir-se em psiquiatria, especialidade que, segundo ele, só dava trabalho a nível do intelecto, logo teria pouco que se mexer.
- parece que foi ao talho. um momento. está a chegar alguém
Já lhe ouvia a respiração ofegante. Imaginou logo aquelas coxas no meio das meias pretas, enfeitadas pelo ligueiro de rendas, que lhe oferecera. Já meio excitado, limpou a pedra do anel do mindinho (já não era espelhada como outrora). Ela deveria estar a levar as compras para a cozinha. Esperou enquanto aproveitava para limpar a cera acumulada no ouvido.
- estou sim?
- Alzira, minha flor. hoje vou aquecer-te os pés – disse dengoso.
- ai és tu, Silva?!
Foi breve a conversa. As chamadas eram caríssimas e contadas por períodos.
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A dona Alzira tinha um casarão, no centro de Coimbra, herança dos pais há muito falecidos. Não casara. Dizia que não estava para aturar homens, mas a realidade é que tinha sido enganada por um doutor. Desflorou-a prometendo aliança no dedo, mas quando acabou a formatura, foi-se para a capital deixando-a de rastos. Começou a alugar quartos aos estudantes pois tinha o privilégio da casa ficar perto das faculdades.
Um dia, bateu-lhe à porta um caixeiro-viajante a perguntar onde ficava a rua Nicolau Chanterenne. Era um daqueles dias de Verão, em que Coimbra fica irrespirável. O desgraçado tinha a camisa colada ao corpo. Ofereceu-lhe um copo de água fresca. A casa estava vazia do tumulto estudantil. Todos tinham partido para férias. Disse-lhe para entrar e sentar-se na sala
Ele sentou-se no sofá.
Mais tarde deitou-se na cama
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A pensão Flor de Coimbra perdera um cliente.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
pilar
O apelo daqueles pasteis fresquinhos, tinham-na distraído, e deixara-a ali mais tempo do que o habitual. Quando tinha voltado à realidade, reparara que numa das mesas e acompanhada de 2 crianças estava uma mulher elegante que lhe parecia a Catarina.
Há muitos anos atrás teria sido uma alegria um encontro daqueles. Teriam partilhado beijos, abraços, risos e confidências entre chá e scones. Estariam no primeiro ano de faculdade.
Hoje tudo era diferente.
Catarina concretizara seu sonho e exercia a advocacia com empenho e sucesso. Mas para Pilar a vida tinha sido madrasta.
Às vezes pensava que a sua vida daria para Gabo escrever um …" Ninguém escreve à Pilar".Metera-se em drogas mal chegara à faculdade. Drogas duras e cada vez mais pesadas.Batera no fundo.
Ao tentar recuperar, já tinha perdido a pouca família que tinha, os pais e um irmão. Tentou mudar de vida por amor, mas mesmo aí tudo falhara. Sem heranças, e a habitar em casa dele, de repente viu-se trocada por outra, e só encontrou a rua como lar, com a roupa e uma parca mochila.
Não tinha a quem recorrer. Iria agora fazer parte de 1 em cada 6 pessoas no mundo que viviam em situação de pobreza.Na primeira semana chorou.Na segunda semana tentou adaptar-se.Na terceira semana tentou sobreviver.A economia moderna não lhe perdoava.
Já com a dentição precária, com voz trémula e o seu curriculum de substâncias proibidas, ninguém lhe dava uma nova oportunidade. Era considerada não rentável. Hoje em dia era mais um pobre. Uma sem abrigo. Fazia parte de uma estatística. Era mais ou menos assim que se chegava aqui ------> à pobreza total.
À noite ia até junto da Sé da cidade onde distribuíam sopa e pão.No Inverno tentava dormir no Abrigo dos Pobres, mas no verão deixava-se adormecer pelos bancos do jardim da Boavista, com uns cartões a cobrir-lhe o corpo. Sempre que podia buscava jornais já inutilizados para ler. Se tivessem contos, melhor ainda.Havia dias em que ia espreitar a montra dos pasteis, às vezes tinha a sorte e alguém à saída oferecia-lhe 1 ainda quentinho.
De repente seu olhar e o de Catarina cruzaram-se. Esperava não ter sido reconhecida. Afastou-se discretamente da montra da pastelaria.
Virou-se e com passos apressados só tinha um único objectivo: virar a esquina.
Ainda ouviu uma voz: Pilar!!!!! Pilar!!!!!
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(out 2007 -Dia Intern pr Erradicação da pobreza)
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009
subsídios
- Sou muito homem, ouviste, ó cabrão? Isto é uma passadeira!
Já não era ouvido mas continuou a barafustar com o condutor do BM que lhe tinha chamado paneleiro depois de não respeitar o vermelho. O sinal verde abriu, e de repente, ficou sem público. Até ele atravessou a rua enquanto ainda olhava na direcção do carro que se tinha perdido no meio do caótico trânsito da cidade. Ao passar pelo quiosque perdeu-se nas parangonas dos desportivos e meio de esguelha olhou as capas das playboys mas nenhuma era recente. Já conhecia todas, não que as comprasse, mas tinha ido ao barbeiro a semana passada e lera-as à borliú. Ler, ler, também não. As imagens valiam por si só e não necessitavam de comentários.
Deitava-se tarde. Ficava-se pelo Café Zip até às tantas. Hoje era madrugada para ele, ainda não eram nove e a cidade já estava a aquecer. Passou pela montra da Zara e mirou-se. Gingava o corpo enfiado na melhor roupa que tinha. Deu um jeito às calças e arranjou o material – detestava aquelas cuecas que tinha comprado nos ciganos, eram assim para o largo e ficava com o material todo a bambolear. Dobrou a esquina e viu logo que não era o seu dia de sorte. A fila já levava uns 10 metros. – Raios partam isto tudo. Se calhar não ia ser atendido de manhã. Quando a repartição abriu entregaram as senhas de ordem. Era o 37. ‘Dasssssss, detestava aquele número. Era o da casa da Amélia, a primeira namorada que queria casar com ele e estava grávida do filho da ti Gusta.
- 37. Trinta e sete!
Pôrra, era ele. Ergueu o braço e entregou a senha.
Se tinha disponibilidade para uma possível experiência. Pois claro que tinha. Se não trabalhava, estava disponível, raio de pergunta. Habilitações? – Fui até ao 6º. Muito bem, ficamos com os seus dados, estão a meter pessoal para o turno da noite, caso surja algo telefonamos. – Para o turno da noite?, não a essa hora não posso.
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- Então, foste atendido?
- Não.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
a catequese
Amanhã é um dia católico, aproveita e vai à missa, Disse ele, à missa?, de repente imaginou-se no tempo em que tinha de “cumprir missa”.
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Más memórias, as da catequese, talvez até…nem boas nem más…mas por não serem boas ou nutridas de qualquer interesse, fizessem delas um tempo obsoleto – para ela, claro.
Caliginosas horas essas. Havia sempre o indicador apontado, nascido num corpo, de cinzentas claras em castelo, que emergia do céu e tinha sempre cara de poucos amigos.
Intocável, o filho, era bem-vindo com um duvidoso “deixai vir a mim as criancinhas”, se fosse hoje levava com um processo tipo casa Pia, por causa das tosses.
Perfeccionista o designer, havia de desenhar sempre a rodela em cima do cálice, milimétrica/mente ao centro, nem mais à esquerda nem mais à direita – centrista q.b., (podia ser colocada de lado, como as rodelas de citrinos, levar uma palhinha e….um on de rocks (?) – why not?), ah e era florescente.
Até que era interessante o sabor da rodela. Obrigava-a a ir em jejum, difícil de entender essa privação, talvez causasse indigestão, chegou a comprar na papelaria Livrália, esquina da a 23 com a 16, enormes e rectangulares.
Estudava-se a trilogia do pai do filho (e todo o séquito de amigos, sempre apresentados com aureolas resplandecentes, em corpos anémico–anorécticos) e de um espírito santo
Naquele tempo…., naquele tempo… já se engravidava artificial/MENTE, e a mãe era de um branco-cera, com ar proselítico, e tinha sempre a cara ligeiramente inclinada.
Pregava-se a harmonia e a igualdade mas havia uma grande distinção entre os filhos de alguns e os filhos dos outros, mais o amor e o pecado (?), pecadoras essas crianças….pecavam tanto.
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É, a missa era mais ou menos tudo isso, Disse ela….
quarta-feira, 27 de maio de 2009
a visita
Sempre impecavelmente aprumada, outrora andaria numa azáfama, entre a loja, que ficava na frente da casa, e os afazeres domésticos.
Recebia-nos com alegria, mas não nos dava prioridade, primeiro estava o negócio.
Tudo estava irreconhecível. Agora tínhamos que ultrapassar várias rotundas até chegar à aldeia. Foi bom a Ró ter ido comigo. Nas entrelinhas dos seus profundos suspiros de “ai-meu-deus”, dava-me instruções: vira aqui, vira ali - caso contrário ter-me-ia perdido.
O jardim da frente da casa também estava encurtado, por causa da estrada. Ainda bem que sobrara espaço para manter as roseiras.
Recuei no tempo.
Às vezes conseguimos recuar no tempo e ficarmos inocentes. Conseguimos imaginar que tinha sido bom ali. Noutra altura teria conseguido recuar até àquela tarde de férias de verão quente.
A igreja ainda era visível dali.
Sentamo-nos todos à roda de uma mesa no jardim. Havida limonada fresca, com água do poço. O som das rolas chegavam até nós, pena que o das galinhas também.
Os pátios tinham sido regados com água para tornar tudo mais fresco, Depois do fausto almoço, e sem vontade para lancharmos, havia quem já se atrevesse a elaborar a ementa do jantar. Depois de algumas sugestões eliminadas conseguiu-se reduzir o menu para uma salada russa (que iria ser servida bem fria) com uns filetes de pescada fresca. Para a sobremesa haveria pão-de-ló e melão fresco.
Fui muito feliz naquela casa.
Recuei no tempo e senti pesar.
Abrimos o portão, torneamos a casa.
A empregada tratava da roupa e disse – ela hoje está melhorzinha, já desceu mas subiu de novo.
Quando me viu, no seu ar canónico tentou esboçar um sorriso de alegria. Talvez até fosse um grande sorriso, já não tinha força para o transmitir por esgar.
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para O.
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sábado, 21 de março de 2009
nocturno
Melhor estar ali que no Jardim das Glicínias. Ali era mais abrigado. Para não falar na clientela. Era tudo do melhor. Bom, o Hotel era de seis estrelas e como as acompanhantes não chegavam para todos sobrava sempre para ela.
Tinha mesmo sorte em estar ali.
O ar estava abafado. Levantou-se e abriu a janela, sendo de imediato invadida pelo barulho ensurdecedor da tarde na cidade.
Olhou-se ao espelho e tinha mais uma mancha.
Andava desconfiada do que era aquilo, mas tinha vergonha de ir ao médico de família.
Hoje, para poupar água não tomaria banho. Poupava água e gás, estava tudo pela hora da morte.
Agora vivia cansada. Acordava cansada. Adormecia cansada. Trabalhava cansada.
Fez um chá preto e carregou-o de mel, era dos poucos prazeres que tinha hoje em dia. De seguida enrolou um charro e fumou-o.
A cama ia ficar assim. Ainda estava molhada daquela maldita transpiração nocturna.
Pôs creme e base na cara e começou a pintura. Um dia destes tinha de comprar pestanas novas e o batom estava nas últimas. Carregou ainda mais na cor. Gostava de sobressair os lábios carnudos.
Contou os trocos. Ainda tinha de passar pelo hipermercado para comprar a merda das camisinhas. Alguns faziam-se esquecidos, outros….faziam-se esquisitos. Agora também…..a ela não lhe fazia diferença.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
vida pacata
Levantou-se às sete da manhã sem a ajuda do despertador. Nunca precisara dele.
Agora até se levantava mais tarde, antigamente levantava-se às cinco ou mais cedo ainda.
Eram outros tempos, deixara essa vida. Vida de escravidão. Para quê? Sim, era rico, mas para quê?
Viviam bem, tinham duas empregadas, uma para tratar da casa, que era enorme, e outra, três vezes por semana, para os jardins e as hortas. Podiam fazer férias todos os meses, podiam até fazer outro tipo de vida que nunca gastariam todo o dinheiro que tinham no banco.
Nunca viajara. As férias eram entre as termas de Monte Real e as do Gerês. A mulher é que decidia.
Dependia da saúde. Normalmente iam para o Gerês. Era agradável, faziam-se conhecimentos de uns anos para os outros. A mulher é que não era lá muito sociável. Achava até desnecessário o riso em excesso, a diversão...Não era nada parecida com a irmã que tinha ido morar para o litoral quando casou. Podiam ser pobres mas eram mais alegres.
A vida de feirante gastou-lhe o corpo e a alma. Não que ele não gostasse, aliás, já nem saberia viver de outro modo. Agora que deixara o negócio para os filhos, já nem sabia que voltas havia de dar durante o dia.
Ia até ao pomar. Verificava se as macieiras tinham bicho, dava um jeito às videiras e apanhava uma ou outra fruta já madura.
Antigamente dava a fruta aos empregados que faziam as feiras com ele, agora ninguém queria nada daquilo, todos davam preferência à normalizada/encerada e de tamanho um pouco obeso.
Não descurava também os pombos, dando sempre especial atenção aos mais jovens – os borrachos – pois eram mais sensíveis a doenças.
O cheiro a café acabado de fazer empurrou-o para dentro de casa. A mesa já ficava posta de véspera para o pequeno-almoço. Sempre fora assim. Tudo organizado.
A mulher olhou-o por cima dos óculos e disse: “Já te chamei 2 vezes, não ouviste?”. Que não, que não tinha ouvido.
Tomaram os dois o pequeno-almoço. Ele café com leite e pão com manteiga. Para ela era sempre o chá de hipericão, que trazia do Gerês, acompanhado com torradas.
Quando estava bom tempo ia até ao adro da igreja falar com os amigos. A vontade dele era pegar no carro e ir até à Figueira ou até Espinho, mas a mulher nunca queria. Dizia que ficava dispendiosa a viagem.
Para ela era quase um sacrilégio permitirem-se a esses gozos.
Gostava de ter conhecido outros sítios, mas foi atraiçoado pela doença.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
algodão doce
Hoje invadiu-me a nostalgia
Talvez tenha sido o nevoeiro o responsável.
Dizem que faz mal aos ossos - o nevoeiro, não a nostalgia, claro.
Em criança adorava o nevoeiro.
Eram dias de um fresco/suave. Ficava como que numa terra de esconde-esconde. Quanto mais cerrado mais interessante. Na minha mente não havia lugar para males de ossos, acidentes de viação...nada disso. Às vezes sentia-me quase invisível – tive sempre uma fértil imaginação.
Cheguei a imaginar-me num mundo de nevoeiro.
Tentava fazer desenhos no ar, como o fazia na vidraça embaciada, mas não surtia qualquer efeito.
Era um tipo de algodão doce imaginário. Apetecia-me pegar em pedaços e degustá-los suavemente, ficando com aquela agua doce na boca até ele se desfazer. Depois, discretamente limpava os dedos ao vestido, não sem antes os ter lambido muito bem, não fosse perder-se algo. A seguir vinha a sede louca fruto do excesso de açúcar.
Com sorte, talvez me dessem um gelado (sorvete) de banana.
Idolatro o chocolate, mas aqueles gelados ....eram assim um misto de leite com banana - tipo batido - mas em gelado, e de uma textura aveludada.
Deveria ser proibido perderem-se esses sabores que nos marcam a infância.
Também deveria ser proibido ficarmos órfãos.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
massa com massa
O estalo soou no ar. Fez até eco na sala meio despida.
Mais uma vez a culpa era dela. Implicativa. Imbecil. Andava ele a trabalhar nas obras o dia todo para chegar a casa e o comer ser aquilo: massa com massa, sim, porque de carne…só com uns binóculos conseguiria enxergar. Ainda por cima odiava massa.
Metia-lhe até nojo quando na hora do meio-dia via o comer do Quim. Era quase sempre massa com feijão e chouriço. Cheirava que consolava, mas dava-lhe um asco a massa.
Sempre dera preferência às batatas e a tudo que viesse da terra, Não havia melhor iguaria que batatas com couves, nabos e cebola, acompanhadas com um naco de toucinho e regado com azeite de lavrador.
A besta da mulher cismava que havia de variar.
- Olha lá, para que queres tu 10 euros? – disse a meio do comer – para ires para o café?
Olhava-a de alto a baixo. Analisava-a minuciosamente na expectativa de lhe ler a alma.
De certeza que tinha um amante. Claro, era óbvio. Se assim não fosse para que precisava ela de arranjar as unhas e as sobrancelhas? Ao Domingo à tarde não fazia outra coisa, era vê-la de lima e de pinça na mão, sentada na soleira da porta com as vizinhas. Já para não falar na gillette dele que estava sempre gasta. Era ela que andava a rapar os pelos das pernas.
- Rapas os pelos para quê? Hã?! Eu gosto disso assim, ao natural. – mas ela não respondia e eliminava-os as escondidas quando ia tomar banho. Devia ser para agradar ao amante.
Ao sábado no tasco do Tito, sempre depois da meia noite, ele punha a passar filmes X. Aquilo é que eram mulheres.
Babava-se só de pensar que já era noite de sexta-feira. Amanhã lá estaria. Se ela lhe perguntasse onde vais…zás! voavam logo os óculos, que era para ela aprender.
O hálito tresandava a álcool, e pé ante pé foi para a cama.
Às escuras sentiu a mulher e satisfez-se. Só assim se tocavam.
Depois adormeceu a pensar que tinha que mudar de gillette.
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sábado, 30 de agosto de 2008
ciclo vicioso
Pela comida para os filhos, trabalhava doze horas por dia.
- Ó Beto, sais ao teu pai, ou quê, hã? Qualquer dia vem a bófia e leva-te dentro. Que raio são esses pacotinhos?....Bicarbonato? Mas tu pensas que nasci ontem? Quero isso tudo fora desta casa e ainda esta noite.
Com a discussão o mais novo começou a arfar, era mais uma crise de asma a caminho, enquanto isso o bebé da Rosa acordara. Não bastavam os filhos e agora mais um rebento. Como podia ser avó tão cedo. Bom, acontecera o mesmo com ela. Menos mal que este ainda tinha o leite da mãe, que ultimamente andava a aperaltar-se toda, mas daqui a algum tempo era mais uma despesa. A desgraçada nem sabia quem era o pai.
Já chegara a levar a neta quando ia engomar a roupa da mulher do Sr. Dr.. O que valia é que as outras senhoras levavam-lhe a roupa a casa e era um ver se te avias. Não tinha mãos a medir. Levantava-se às seis e não parava. Tinha concorrido à Câmara para tratar dos jardins, mas aquilo era sete cães a um osso. É que ela não tinha cunhas. Ainda tinha deitado a cantada a uma das senhoras que trabalhava na tesouraria mas ela fez-se de parva. A partir daí ficou a pagar mais do que as outras que era para ela aprender.
Pegou na criança e mudou-lhe a fralda.
Continuou a chorar, tinha era fome. Enquanto a mãe não chegava encheu-lhe a chupeta com açúcar – não sem antes a passar pelo copo, sim, porque se tinha feito isto com os dela e eles não morreram, porque não fazer com a neta, que fazia mal, bah mal a quê?
Ela quando tinha quatros anos já bebia um copo como os adultos, e se lhe pusessem açúcar ainda mais bebia. Era noite santa. Nem ouvia os berros do pai quando chegava a casa bêbado, o que era dia sim, dia sim.
Pelo barulho do motor pensou ser uma das senhoras a levantar a roupa. Espreitou pela janela. Não reconheceu o carro. Preto e reluzente. Quem era demorava a sair. Esperava era que trouxessem o dinheiro, que isto de ter bons carros e não pagar era hábito - que não estava a dar dinheiro a caixa multibanco, diziam. Ah, desculpas.
A conta da luz que este mês era alta, em silêncio aceitou o dinheiro da filha.
Bah, ela também tinha andado na vida e não morrera.
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domingo, 24 de agosto de 2008
resonare
Colocou o despertador para as seis da manhã. Mais uma vez tinha de ir fazer as análises de controlo de sangue por causa daquela coisa da coagulação ou lá o que era. Queria ser a primeira, pois tinha as galinhas para cuidar.
Entrou no quarto. O marido já dormia a sono solto, talvez a pinga do jantar lhe tivesse dado aquele quebranto. Ultimamente só costumavam jantar sopa, pão e fruta, tinham deixado de beber à noite a conselho do médico, ele por causa das tensões e ela pela coisa da coagulação ou lá o que era. O médico era um palerma, essa era a verdade. Ela continuava a beber às escondidas e estava fina. Manias dos doutores.
Por vezes pensava se não andaria a beber em demasia, tal a rapidez com que o vinho se esgotava.
Queria adormecer cedo e não conseguia. Aquele maldito roncar. Era sempre assim. Quando ele bebia ainda era pior. Parecia uma trovoada contínua. Uma vez até lhe espetou com a agulha de croché, mas conseguiu apenas uns minutos de silêncio.
Estava fartinha dele. Raio do homem, vinte anos mais velho e tinha mais genica do que ela. Bem que lhe podia dar alguma e ir de vez, como aconteceu com o Zé da padaria – agora era ver a viúva toda airosa, diga-se até um pouco alegre demais e o Luis Peixeiro não arredava pé lá da porta. Uma pouca vergonha, isso sim.
Puxou a roupa toda para si, deixando-o a descoberto e adormeceu.
Era a segunda. Levantara-se tão cedo para ser a segunda. Raios partam àquela mulher que chegava sempre antes dela. Chegava mais cedo porque ia de carro, que ela via-a muito bem a estacionar. Que tinha que ir trabalhar para o Porto, dizia em conversa com os que iam chegando. Trabalhar!!! Ah, mas com aquelas unhas pintadas sabia lá o que era trabalho. Hum, também ia fazer análises por causa daquela coisa da coagulação ou lá o que era.
De regresso a casa, em pleno Agosto, chovia. Já nada era como antigamente.
Ao longe avistou a carrinha do INEM.
- Ai, ele vai fazer-me tanta faltinha – dizia a quem lhe dava as condolências.
Ainda bem que eram sócios da funerária, ficava mais leve a cerimónia.
O filho mais velho disse-lhe que no óbito constava cirrose do fígado.
Foi a primeira noite tranquila em 50 anos de casada.